Artigo do Jornal da Casa do Concelho de Gouveia

Vila Cortês da Serra foi atalaia de lusitanos

(...) Vila Cortês é uma linda e jovial aldeia do nosso concelho. O seu todo revela uma garridice atraente e comedida, que lhe dá o ar taful de moça domingueira. Parece um noivado a sair da igreja, sob uma chuva de flores e sorrisos...

(...) olivedos e pomares, batatais e milharais adormecem com a cantilena das ribeiras que vêm da Serra e sob o luar do Céu.

De roda do povo, mais à mão, cultivam-se os mimos. Mas, por todo o termo, é com mimo e até ternura que se alaga e trata esta nossa terra santa que é berço e sepultura. 

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Vila Cortês da Serra foi atalaia de lusitanos

Por amor da Nossa Terra - Como um eirado ao Sol...

Para o povo, tudo o que é antigo vem dos tempos dos moiros (J. Dinis). Por critério semelhante, nos enciclopedistas, o remoto reporta-se à independência, era o Caos.

Assim, dizem-nos que o povoamento de Vila Cortês data do século XII. Fazendo parte da Honra de Melo, teve por senhorio D. Soeiro Raimundo. E, como todos os povos da região, viu os seus destinos ligados aos castelos de Linhares e Celorico.

Umas vezes sem dar um passo, outras vezes com o sacrifício das vidas, consoante a sorte da guerra ou o ânimo dos fidalgos, assim se encontrava ora de cá, ora de lá.

Pois, sem prejuízo desta antiguidade, antes favorecendo-a o General Sr. João de Almeida alarga-lhe consideravelmente os limites, levando-nos quase pelo infinito das idades. No «Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses» diz, referindo-se a Vila Cortês:

  • «Presume-se que a sua primeira fortaleza fosse um castro lusitano».
  • Noutro passo afirma

  • «No cabeço do Castelejo, a 2km a Oeste, existem vestígios duma construção militar. É possível ser castro luso-romano ou simples torre de vigia».

Esta expressão simples torre de vigia compreende-se possivelmente melhor, se resumirmos o que neste ponto diz o abalizado militar.

Manteigas era baluarte inexpugnável dos lusitanos. (Por ser inacessível? Pelo sistema defensivo?)

Em relação às terras do nosso concelho, já demos conta dos castros de que foram encontrados vestígios; mas o sistema estendia-se por todos os lados, como se pode verificar na obra citada. Quanto aos nossos, talvez pudéssemos encará-los como estabelecidos em três linhas:

  1. Melo, Nabais, Paços;
  2. Folgosinho, Bico do Corvo, Farvão, Monte Negrume;
  3. S. Tiago, Santinha, Alfátema;

Para além desta formidável cintura, ainda Vila Cortês, com a torre de vigia no cabeço do Castelejo.

E porquê essa vigia no Castelejo de Vila Cortês? Já veremos, hipoteticamente, é claro... 

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Já não teremos a oportunidade de voltar a referir-nos aos lusitanos. Ora sendo nós todos tão orgulhosos da ascendência, gostamos de ler coisas que deles nos falem...

Vêm, como se sabe, de antes de Cristo. Para o caso, tanto servia citar Aquilino, em «Os Avós de nossos Avós», como o Padre Luis Gonzaga de Azevedo, em «História de Portugal». Ambos se baseiam muito em Estrabão.

Aquilino, para traduzir-lhe a densidade populacional, refere-se-lhe nestes termos: «aquele colmeal inesgotável de gente» ou «o viveiro humano». O Padre Gonzaga fornece-nos muitos elementos quanto aos seus costumes e estado de civilização. Até parece reforçar a sentença de que «não há nada de novo à superfície da terra»:

  • Praticam o costume de expor os doentes à beira dos caminhos, para que receitasse aquele já curado do mesmo mal.
  • Colhiam vinho, o qual dava ensejo a tão duros homens.
  • O ajuntamento de parentes era celebrado com músicas e certas variedades de danças.
  • Guardavam cortesia e respeito aos mais velhos e aos mais dignos, e reservavam-lhes nas ceias os primeiros assentos.
  • Praticavam os jogos públicos, tendentes à educação física.
  • Nenhuma nação peninsular possuiu, talvez, instituições religiosas tão completas.
  • Em lugar mais elevado construíram um castro ou castelo, a que se acolhiam com mulheres e filhos, quando atacados.
  • A propriedade era colectiva, não se dividia.

Estas citações já bastam para demonstrar que os lusitanos tinham uma vida estável, assente em elevados princípios morais. Constituem um povo trabalhador e pacífico. Só por instinto e necessidade de defesa aceitaram a guerra, pois aos seus castelos acolhiam com mulheres e filhos se eram atacados. E a guerra, por parte dos romanos, foi até ao fim, ferozmente conduzida.

 

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Ainda na mesma obra, do citado general, se esclarece mais a respeito da antiguidade de Vila Cortês, ao acrescentar-se que é de fundação remotíssima como provam as ruínas de um castelo medieval e vestígios de uma cerca amuralhada que envolvia a povoação.

Não sabemos se ainda se conservam essas ruínas e vestígios de uma cerca amuralhada. Há uma tal tendência para destruir, que não nos admiramos se já não puder ser visto por nós, aquilo que, ainda não há muito, foi encontrado pelo ilustre militar. Também para o mesmo autor, são bem visíveis os vestígios da ocupação romana. E elucida:

  • Por ali passava a estrada militar que vinha de Viseu por Azurara (Mangualde) e entroncava em Linhares com a de Guarda – Coimbra.

    E agora perguntamos nós

  • A existência daquela via mlitar, romana, não explicará a presença da torre de vigia, lusitana no cabeço do Castelejo? O que ali fosse observado, quanto à movimentação militar dos romanos, não iria imediatamente pôr em estado de alerta o vasto e poderosos sistema defensivo cujo centro era Manteigas?

Nos longos anos de ocupação e conquista com ameaça e execução de escravatura, quantas vezes foi suspenso o trabalho dos teares, o fabrico da cerveja e do vinho, a sementeira do centeio, a curtimenta das peles, a cozedura da cerâmica... E enquanto uns recolhiam aos castrejos e acautelavam gados e mantimentos, outros acorriam a bater-se através de toda a Península.

 

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Vila Cortês da Serra (ou da Estrada) pertenceu ao concelho de Linhares, até à data da sua extinção que se deu por Decreto de 24 de Outubro de 1855. Sabíamos, por ter visto, que num velho edifício existia uma pedra de armas. Em Américo Costa encontrámos esta sucinta referência:

  • Os Mendonças de Freches, tinham ali uma casa com brasão. Do casal das Senhoras Mendonças, em Vila Cortês, foi herdeiro – ou um dos herdeiros – seu sobrinho, o Dr. Paulo Mendonça (?) de Falcão e Távora, homem de esmerada educação e fino trato, que morreu prematuramente em Seia, onde era Conservador do Registo Predial.

Pinho Leal e outros autores fazem alusão à passagem e estadia das tropas napoleónicas, assim como à consequente actuação do exército anglo-luso. Afirmam ter estado em Vila Cortês o Quartel General de Massena e dão-nos conta de rijos combates em Carrapichana. Embora a batalha do Buçaco fosse em 1810, a retirada dos franceses arrastou-se ainda por 1813, falando as terras da Beira, ao longo do natural caminho de invasão.

Já perto do nosso tempo. dois homens fizeram fortuna em Vila Cortês, dedicando-se à indústria da fiação de seda natural: Rui de Almeida e Joaquim Tavares Ferreira. Do primeiro, era filha D. Maria Augusta, que veio a casar com distinto clínico de Gouveia, Dr. Luis Lopes. O Joaquim ordenou três filhos: Rui, António e José, sendo os dois primeiros também formados em direito.

João Soares de Alverfaria, a cuja família já nos referimos de outra vez, veio a casar com sua prima, D. Alexandrina Soares de Albergaria [...].

 

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Só para fugir à monotonia da repetição não devíamos deixar de dizer que Vila Cortês é uma linda e jovial aldeia do nosso concelho. O seu todo revela uma garridice atraente e comedida, que lhe dá o ar taful de moça domingueira. Parece um noivado a sair da igreja, sob uma chuva de flores e sorrisos...

Desde o Maranhão ao Moirinho, das Tapadas das Fontes ao Palafrão e ao Paúl, olivedos e pomares, batatais e milharais adormecem com a cantilena das ribeiras que vêm da Serra e sob o luar do Céu. Pelo Tapadão, Cerca, Carvelão e Cascalhal continuam as oliveiras e as videiras, como nas Lameiras e nas Chãs, onde aparece o centeio a quem basta o sequeiro do Vale do Nízio, do Castelejo, da Pedra Alta, do Talegre, do Vale da Silva.

De roda do povo, mais à mão, cultivam-se os mimos. Mas, por todo o termo, é com mimo e até ternura que se alaga e trata esta nossa terra santa que é berço e sepultura.

Não sabemos. Mas estamos em crer que Vila Cortês, sendo um centro de mavioso lirismo, há de ser uma terra de poetas...

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