Um resumo sobre a história desta aldeia

Dista de Gouveia 9 km para NE da estação de Gouveia ou da estação de Fornos de Algodres, na linha da Beira Alta 7 km, a 6 km da margem esquerda do Mondego, 41 km da Guarda para oeste pela estrada a macadam, 65 km pela via férrea (estação de Fornos de Algodres), 152 da cidade da Figueira (pela linha férrea, estação de Gouveia), 207 do Porto e 332 de Lisboa.


Câmara de Gouveia

Esta freguesia está em planície funda, no sopé da Serra da Estrela e na margem direita de uma grande ribeira, formada pelas de Melo e do Freixo, que fazem junção na grande ponte de pedra a macadam de Celorico a Coimbra, estrada que toca nesta povoação, do lado sul, separa da sua igreja matriz, correndo de leste a oeste.

As ditas ribeiras, por ocasião das chuvas e do degelo da grande serra próxima, avolumam de um modo espantoso, com a grande quantidade de água que se despenha da Serra em torrentes e inundam parte da povoação e da campina marginal, causando por vezes prejuízos consideráveis e comprometendo a salubridade pública. Tem havido aqui epidemias devastadores, matando famílias inteiras e deixando casas desabitadas!


Igreja Paroquial 
de Vila Cortês da Serra

A igreja paroquial é um templo espaçoso e elegante, muito vantajosamente situado a cavaleiro da estrada a macadam e da povoação, em sítio relativamente alto, alegre e vistoso. Foi mandada fazer nos fins do último século [XVII] ou princípios deste [XVIII] pelos condes de Mello, donatários desta paróquia e que apresentavam o seu prior. Tem altar-mor com belo retábulo de talha dourada e três laterais, coro sobre o guarda-vento, torre com quatro sineiras muito elegantes e bem acabada.  

Tem cemitério em volta de toda a igreja, ampla escadaria que dá entrada para o cemitério e deste para a porta principal para a igreja. Circunda o cemitério ciprestes e oliveiras e há na igreja duas irmandades: uma do santíssimo, que é a fabriqueira, e outra do Senhor das Almas. No centro da povoação há uma capela de S. Bartolomeu, o que foi a velha matriz e teve festa própria e grande feira, em tempos no dia de S. Bartolomeu a 24 de Agosto.

Há nesta paróquia um edifício brasonado, antigo, pertencente à família Mendonças de Freches, no concelho de Trancoso. Entre os não brasonados os que mais avultam hoje são os seguintes: um de Joaquim Tavares Ferreira, pai de três presbíteros, sendo dois formados em direito, outro de Francisco Maria, de Sandomil e, outro dos herdeiros de Rui d'Almeida, que foi negociante e deixou boa fortuna. Este último é o melhor e mais moderno.

Além das ribeiras já mencionadas e que, depois de se fundirem numa só, desaguam no Mondego, junto da povoação, antiga Vila de Cabra [Ribamondego], banha esta freguesia a ribeiro do Ollo, cerca de 500 metros ao norte e pouco importante. 


Brasão de 
Vila Cortês da Serra

Na grande ribeira há duas pontes de pedra, uma mesmo na povoação de Vila Cortês, outra alguns metros a montante, feita pelas obras públicas na estrada real a macadam e dois pontões na povoação para serventia do pequeno bairro que foi ainda e hoje se chama termo de Folgosinho. Há também na grande ribeira três moinhos de pão, um lagar de azeite, e fábrica de fiação de seda, que foi de Rui d'Almeida, e outro de queimar vinho, pertencente a Joaquim Tavares Ferreira.

Houve também aqui noutros tempos um bom estabelecimento de tinturaria, a que o povo chamava e ainda chama o Tinte. Dele restam hoje apenas uns grandes casarões e grandes fornalhas, tudo em ruínas.

Esta paróquia nunca foi vila, mas gozou de todos os privilégios das vilas de Gouveia, Folgosinho e Linhares. Há no limite desta paróquia um pequeno morro denominado Castelejo, que se supõe ter sido atalaia em tempos remotos e nele uma cavidade denominada Capela dos Mouros. Tem esta freguesia uma aula oficial de instrução primária elementares para o sexo masculino.

As suas produções principais são: milho, feijões, batatas, vinho e azeite. Exporta todos estes artigos em quantidade. Também produz muita hortaliça, com que abastece os mercados de Gouveia, muito queijo que vende para o Porto e Lisboa, onde é bem conhecido por Queijo da Serra da Estrela, centeio para consumo e lã, pois cria bastante gado lanígero.

Como passava nesta freguesia a antiga estrada militar, que é, com pequenas variantes, a mesma estrada a nova macadam, sofreu muito esta povoação com os movimentos da tropa principalmente na guerra peninsular, quando o exército francês, comandado por Massena, retirava das linhas de Torres Vedras pela ponte de Murcela e Celorico da Beira para a Espanha. Ocuparam literalmente esta povoação durante a passagem de todo o exército e aqui tiveram um hospital de sangue na casa dos Sequeiras Côrte-Reais, pagando-lhes generosamente incendiando-a, bem como parte desta povoação, quando se retiraram. A tradição local ainda conserva muitas recordações daquele tempo e entre elas a lenda seguinte: "Em certo reencontro que os franceses tiveram com o exército anglo-luso na Carrapichana, um soldado da cavalaria francesa recebeu tal golpe no pescoço que lho cortou, ficando com a cabeça pendente sobre as costas e, partindo o cavalo à desfilada sem governo, só parou junto desta povoação, trazendo na sela o cavaleiro decapitado!" A freguesia da Carrapichana está também na mesma estrada de Celorico, que atravessa Vila Cortês, mas distante cerca de 4 km para leste.

Diz também a tradição local que no sítio da coutada, pequeno cabeço nos limites desta paróquia, houvera em tempos remotos um vulcão ou olho marinho, de tal ordem que levou envolta um espaçoso tracto de terra com arvoredo, inclusivamente um castanheiro, indo parar tudo na ribeira próxima, a distância de 200 a 300 m.

Assim o afirma a tradição local, mas quem não acreditar não peca!

Ao reverendo José Nunes Morgado, digno prior desta freguesia, agradeço os apontamentos que se dignou enviar-me.

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