Registo sobre Vila Cortês da Serra

Este é mais um registo bibliográfico sobre a aldeia de Vila Cortês da Serra, fornecido por um conterrâneo. De data incerta, mas posterior a 1884, contém algumas novidades para além da informação também já referida noutros registos bibliográficos incluídos na página desta aldeia. O texto é transcrito na íntegra, incluindo as abreviaturas e as datas.

Vila Cortês. Designação que também é dada às reg. de Vila Cortês da Serra, do conc. de Gouveia e Vila Cortês do Mondego, do conc. da Guarda.

V.C. da Serra, Freg. do conc. e com. de Gouveia, dist. e dioc. da Guarda, rel. de Coimbra. Orago: N.ª S.ª da Conceição. Pop.: 734 hab. em 212 fogos. Dista 11km da sede do conc. tem serv. de correio, feito pela est. post. de Gouveia. Esc. Prim. e lagar de azeite.

A freg. fica num profundo vale onde passa uma ribeira afluente do rio Mondego, que, na época das chuvas e durante os degelos, corre torrencialmente. Não há notícias desta localidade durante os primeiros séculos da Nacionalidade, o que não se deve à inexistência, mas à falta de factos que fixassem a pov. em documentos escritos. Em todo o caso, o povoamento local deve reputar-se anterior do sec. XIII ou XIV, e por aqui existiria mesmo população em épocas pré-romanas, pois que parece ter existido um castro no morro denominado Castelejo, no qual há também uma cavidade que o povo denominou Capela dos Mouros. A poc. deve ter resultado de alguma “villa” rústica, no caso mais antigo, ou é fundação resultante do repovoamento do terreno do castelo de Linhares, após a libertação desta fortaleza, de cujo domínio era, nos meados do século XI. O termo Cortês será um derivado do apelativo “corte” (pois que os dois lug. da freg. são Vila Cortês e Cortes da Estrada)?. Nesse caso, teria sentido arqueológico tal designação, ainda que tão tardiamente imposta (séc. XI-XIII). O lug. situa-se a meia distância entre Linhares e a antiga vila de Cabra (talvez topónimo pré-romano Calabriga ou Caábria?), mas parece ter feito parte da honra de Melo, pov. e antiga vila que se situa ao sul e cuja fundação nos fins do séc. XII pode indicar a de Vila Cortês.

“Esta freg. – escreve o abade de Miragaia – é pouco saudável por estar em planície funda, no sopé da serra da Estrela e na margem direita de uma grande ribeira, formada pelas de Melo e de Freixo, que fazem junção na grande ponte de pedra da estrada de Celorico a Coimbra (...). As ditas ribeiras, por ocasião das chuvas e do degelo da grande serra próxima avolumam de um modo espantoso com a grande quantidade de água que se despenha da serra em torrentes e inundam parte da pov. e da campina marginal, causando por vezes prejuízos consideráveis e comprometendo a salubridade pública. Tem havido aqui epidemias devastadoras, matando famílias inteiras e deixando casas desabitadas”.

Diz mais o continuador de Pinho Leal: “Como passava nesta freg. a antiga estrada militar, que é, com pequenas variantes, a mesma estrada nova (...), sofreu muito esta pov. com os movimentos de tropa, principalmente na Guerra Peninsular, quando o exército francês, comandado por Massena, retirava das linhas de Torres Vedras pela ponte da Murcela e Celorico da Beira para a Espanha. Ocuparam literalmente esta pov. durante a passagem de todo o exército e aqui tiveram um hospital de sangue na casa dos Sequeiras Cortes Reais, pagando-lhes generosamente incendiando-a, bem como a grande parte desta pov. quando de retiraram. A tradução local ainda conserva muitas recordações daquele tempo”.

Sobre a instituição paroquial nada é costume dizer-se de positivo quando a princípios, ocorrendo mesmo a errada persuasão que o abade de Miragaia recebeu por informe do local, de que a igreja matriz velha foi a capela de S. Bartolomeu, no meio da pov. onde no seu dia se realizava a festa e feira. O culto daquele apóstolo, que entre nós é um dos mais antigos, pode bem ascender aqui à Idade Média, mas é errado supor-se que o orago da paróquia fosse ele primitivamente pois que a igreja de Santa Maria de Vila Cortês já é citada no arrolamento dionísio paroquial de 1320-1321, em pleno arcediagado de Seia e taxada em 20 libras.

“A igreja paroquial (de Santa Maria) é um templo espaçoso e elegante muito vantajosamente situado a cavaleiro da estrada (...) e da pov., em sítio relativamente alto, alegre e vistoso. Foi mandada fazer nos fins do último séc. XVIII ou princípios deste pelos condes de Melo, donatários desta paróquia e que apresentavam o seu prior. Tem altar-mor com um belo retáculo de talha dourada (...), torre com quatro sineiras, muito elegante e bem acabada, cemitério em volta de toda a igreja, ampla escadaria que dá entrada para o cemitério e outra deste parar a porta principal da igreja” (Abade de Miragaia).

Parece que do séc. XII para o XIII era senhor do lug. o prócer D. Soeiro Raimundes ou Reimondo de Riba de Vizela, do qual ficou a seu filho, o rico-homem D. Mem Soares de Melo e deste a D. Soeiro Mendes, seu filho, etc. Era inicialmente do termo do castelo de Linhares, mas surgindo dentro deste os conc. de Melo e Folgosinho, a pov. De Vila Cortês, situada na junção, ficou dividida pelos três, o que o abade de Miragaia exprime, por informações locais, deste modo: “A pov. de Vila Cortês, sede desta paróquia e a única que a constitui, posto que é uma pov. compacta, dividia-se de um modo curioso em diferentes grupos ou bairros: um, pertencente ao termo da extinta vila de Linhares; outro, ao termo da extinta vila de Folgosinho; e outro ao termo de vila de Gouveia. Ainda hoje (1884) esta pov. se distinguem aqueles três grupos de casas bem como os seus habitantes, dizendo-se: estes são do termo de Gouveia, aqueles são do termo de Folgosinho. No termo de Linhares já se não fala”.

Extinto em 1834 o conc. de Folgosinho, a parte deste entrou no conc. de Linhares, bem como a parte do de Gouveia. Extinto o conc. de Linhares, a 24-X-1855, passou toda ao de Gouveia. A igreja paroquial era do senhor da terra, e por isso os condes de Melo ainda no séc. XVIII apresentavam o prior de Vila Cortês, com uns 160 mil réis de rendimento anual. Esta freg. também aparece designada por Vila Cortês, simplesmente e Vila Cortês da Estrada.

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